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O mistério da dor crônica

Geralmente pensamos na dor como o sintoma de uma doença, de uma inflamação, de um trauma e, na maioria das vezes, isso é verdade. Entretanto, em cerca de 10% das vezes, a pessoa se recupera, mas persiste com a dor. Quando isso acontece a doença é a própria dor.
Nosso sistema nervoso (nervos, medula espinhal e cérebro) muda em resposta a tudo, ele é plástico. Por exemplo, quando começo a aprender uma nova habilidade motora, como andar de bicicleta, por exemplo, tenho que fazer um grande esforço para coordenar meus movimentos de forma adequada e para achar meu equilíbrio. Com o treinamento, passo a andar de bicicleta quase que automaticamente, meu cérebro já sabe o melhor caminho para recrutar os músculos corretos, na hora correta.

Nosso sistema nervoso também muda em resposta ao estímulo doloroso intenso e persistente (fenômeno chamado de sensibilização central). Ocorre mais ou menos assim: um estímulo doloroso chega da periferia (exemplo, fraturei o pé) na medula espinhal através de um tipo de nervo (as fibras C). Se este estímulo doloroso for muito intenso e duradouro, outras fibras diferentes das fibras C (fibras que geralmente transmitem tato, pressão, temperatura) passam a ser recrutadas para ajudar a levar a dor da periferia para a medula. Só que elas levam a informação de dor para outros lugares da medula, lugares que originalmente recebiam informações referentes ao tato, à pressão e à temperatura. Vários neurotransmissores são liberados. Esses neurotransmissores se espalham, ativam outras células, que liberam mais neurotransmissores, acabando por produzir uma amplificação, uma facilitação da transmissão da dor. Além dessa amplificação e distorção na região que recebe a informação dolorosa na medula, ocorre também uma inibição da modulação inibitória que vem do cérebro para a medula.

Complicado? Não. Basta sabermos que o cérebro tem um sistema que inibe a dor e que o que sentimos é o resultado do estímulo doloroso que entra e da inibição do cérebro, que modula a dor. Esse sistema de inibição é que fica alterado na dor crônica. Assim, se existe dor crônica, não vale o pensamento simplista de, se acabarmos com o que causou inicialmente a dor ela vai acabar. As vezes perdemos um tempo precioso tentando achar a causa da dor crônica e esquecemos de tratá-la. Não quero que me entendam mal, a causa é importante, mas o tratamento pode começar mesmo se não soubermos a origem da dor.

Autor: Dra. Claudia Blanco Barroso    CRMDF 9396